
(Michel e Abigail mascarados de Bukowski e uma grande amiga)
No bar do coletor de espécimes raras, as prateleiras no alto exibem um bestiário numeroso de bichos enfiados em garrafas de cachaça tequila absinto vodka martini conhaque brandy bláblá. Garrafas aprisionando caranguejos albinos rabinhos elétricos de lagartixa gatos lontras libélulas crisântemos papoulas tulipas moréias toupeiras pigmeus siameses escaravelhos morcegos escargots e afins. Mas é assim que a embriaguez se faz, aqui; o paladar encontra o álcool fermentado num bestiário a colocar em metamorfose o mais patético dos clientes. É lá que os anônimos as putas os michês as travecas aprendem a rir e a dançar. É onde Abigail e Michel estão, agora, num tempo e num espaço dobrados, origâmicos, num papinho à toa:
MICHEL: Biga, olha só: “Quarta, 4 de junho: J'aime ces types vicieux, qu'ici montrent la bite. 'Gosto dos tipos sacanas que mostram o pau aqui'. Anônimo, num mictório de Paris.” O Burroughs escreveu isso no diário dele. Não é demais?
ABIGAIL, depois de uma longa tragada na narguilé: Ah, dizem que esse Burroughs fez até propagandinha de TV, não segurou a onda de “under”. Bom, pelo menos tomava e picava todas. Tinha algo a dizer. Dá um cigarro? Cansei de fumar essa merda.
MICHEL, acendendo o cigarro da amiga: E você e a Maíra? Andam se falando?
ABIGAIL: Sim... por quê?
MICHEL: Ah, você vivia falando dela, com um puta entisiasmo... de repente mudou, nessas últimas semanas.
ABIGAIL: Ah, estou com uns problemas lá em casa, com minha mãe. Cabeça cheia.
MICHEL: Mas ela tá bem?
ABIGAIL: Quem, minha mãe? Tá, tá. (longa pausa... dá um gole no martini seco). Acho que meu pai ainda incomoda ela, mesmo depois de morto. Fantasminhas, entende? Só acho que ela devia esquecer de vez, virar a página. Mas não sinto rancor nela, apesar de tudo. É que quando bebe em casa, parece que o ambiente doméstico a faz lembrar de coisas desagradáveis. Meu paizinho poderia ser só um bode expiatório.
MICHEL: Adoro su madre. Mas não cheguei a conhecer seu pai. Você me falou dele uma vez... era psicanalista, né?
ABIGAIL: Pois é, um chato. Pra cima da minha mãe, a violência dele era astuciosa, “civilizada”, em doses homeopáticas. Se achava O divã ambulante, onde as pessaos deveriam meter a bunda e falar. Cê já se confessou na igreja?
MICHEL, virando um campari: Porra, acredita que sim? Duas vezes. Falei que sempre tinha polução noturna. Mas omiti que batia punheta fantasiando que gozava nos olhos verdes da minha prima, que tinha uma clavícula linda. (olha para o copo) Arrgh. Cara, campari tem o mesmo gosto de quando você acaba de vomitar. Pura troço amargo! Seu Muhamed! Traz uma vodka! É, a garrafa com a lontra.
ABIGAIL: Então, meu pai achava que o mundo devia se confessar aos pés dele. Sei lá... puta síndrome de inferioridade mascarada. (risos) Olha eu também, metida a psicóloga! Ah, odeio essa raça. Então... daí minha mãe cansou de tudo aquilo, das “neuras” que ele falava que ela tinha, “porque de acordo com o Dr. Freud...” (engrossando a voz)... pfff... e pensar que eu já quis trepar com ele, na pré-adolescência!
Mamãe o degolou, arrancou sua língua e enfiou na “fase anal” dele. Vi o cadáver, e a linguinha ali, no rabo, parecendo um oxiúros de cabecinha vermelha.
MICHEL: (rindo) Ele chegou a te molestar?
ABIGAIL: Ah, de leve, acho que se sentiu culpado demais pra continuar. Na época, eu até queria. Vai ver porque não conhecia as pessoas do mundo aqui de fora, já que vivia trancada em casa. Tinha meus... 9 anos? Por aí. E ele me parecia o mais interessante, no meu mundinho, pra compartilhar dos meus desejos. Mas passou rápido. Meu número de bonecos e bonecas era enorme, grandes amigos.
MICHEL, tragando a narguilé: (pausa) Brindemos! Ao Sr. Muhamed! Ae! Cara, esses dias conheci uma garota com a boca mais suja - no sentido literal do termo - que meu pau. Porra, menina fétida! Abocanhou até o talo e me infectou com bactérias podres. To tratando.
ABIGAIL: Tratando...?
MICHEL: É, quando vou ao banheiro, sempre levo uma dose de cachaça junto, e derramo nas feridas. Deve adiantar alguma coisa. Eu acho.
ABIGAIL: Ih, to até vendo, suas 2 cabeças de ressaca, amanhã. Quem diria, hein Michel... esse rostinho bonitinho seu... escondendo um pau tão sujo (risos).
Falar em banheiro, vou lá e já volto. Não some hein.