Talvez o cara mais suspeito pra falar de dança butoh na face da terra seja José, mas... voilá:
Sabe quando seu personagem de quadrinhos mais admirado salta das páginas chapadas para a tridimensionalidade do cinema? Mais ou menos isso. Só conhecia butoh pelas fotos, o que já me afetavam com grande violência. A barca do inferno em fotos p&b era composta de Tatsumi Hijikata, Kazuo Ohno (os fundadores da “dança das trevas”, na tradução), Yoshito Ohno, Ko Murobushi, Carlota Ikeda etc etc. Bando de fantasmas nus de um Oriente desorientado, ou, como queriam os fundadores, uma dança do “corpo-morto”. Próximo do que Artaud queria com o Corpo-sem-Órgãos, penso eu.
A 1a encenação do Butoh no Japão, déc. de 60: Yoshito Ohno, filho do Kazuo, simula sexo com uma galinha. Pq a galinha? Com a cabeça decepada, o corpo-morto galináceo continua a saltar e a dançar, “non-stop”, sem a interferência do cérebro. Puro frenesi de músculo-eletricidade nijinskiana. Deixa eu parar senão prolongo.
Fui ver Tadashi Endo, amigo e aprendiz de Kazuo Ohno, no Sesc-belenzinho. Um monstro fantástico no palco, fabulando uma dança dadá. O espetáculo chamava-se “butoh-ma”. “Ma”, no budismo, ou “mu”, em japonês, significa “vazio”, “nada”, o que é diferente da concepção de “falta” ou “carência” ocidental. Trata-se de um pleno “estar-entre” polaridades, como um rio-fluxo de Heráclito, nunca atingindo harmonia nem passividade final. Não se sabe a origem nem o fim do córrego; deve-se retirar forças pelo meio, “entre”.
Gostei bastante. Inesquecível. Nunca havia visto um espetáculo de butoh. Ah, no final, Tadashi Endo dança “ne me quite pas” com um belo vestido nipônico. E uma rosa como companheira.
non stop.