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Trata-se de um... "travesti"?... de 72 anos.Caso Sr. B.: a experiência híbrida
Há quem bendiga a existência na atmosfera febril do assassínio. Quando os tempos - como os atuais - são de "epidemias brancas", como a idéia de "saúde perfeita", "democracia" e "paz mundial", uma espécie de violência específica mostra-se terrificante aos pregadores da "igualdade" harmônica, desprezadores das experiências-limite que coloquem à prova o próprio homem-corpo-fechado. A dissecação e os desabrigos do sujeito ainda são vastos campos pouco explorados. Os territórios legados pelo pensamento filosófico tradicional elegeram "o Homem" como medida inalterável de todas as coisas. Um abalo sísmico fez-se necessário para uma mudança nos planos de pensamento sobre o sujeito, cuja “substância” ilusória deve ser colocada sob a ótica do contágio, do hibridismo, de um erotismo alquímico. Aqui, o elemento "humano" é um maquinário sem nenhum caráter, cujos fluxos bestiais criam elos estranhos a qualquer lógica identitária.
B. L. B., 72 anos, é uma imagem da indeterminação, incongelável na gagueira frenética de seu vir-a-ser "mulher". Devir feminino que, mesmo às claras, em pleno meio dia do umbigo de Londrina, manifesta uma cartografia de desejos irreconhecíveis (porque singulares) e insustentáveis (porque nômades, em intensidade). Transfigurar-se, a olhos vistos, é somente a ponta do iceberg, um signo da soberania aristocrática de quem faz de si uma máquina desejante, gratuita, injustificada e indeterminada, pois movimenta-se por metamorfoses.
Mascarar o corpo não é revestir a ilusória idéia de Natureza originária, a nudez desavergonhada, a Idade do Ouro do "bom selvagem" (nada mais ridículo), mas lançar risos de hiena diante do vácuo, estar de acordo com pulsões e forças imprevisíveis na fabricação de si; a maquilagem não preenche a "natureza-tosca", inacabada e em cacos, como pensava o poeta Charles Baudelaire, porque não há Natureza. O "natural" é uma vã promessa divinizante do homem em busca de tornar o mundo previsível, inteligível a partir dos territórios de "essência", "identidade", "órgão", "gueto", "unidade"; em resumo, uma vã esperança de "inteligibilizar" o mundo a partir da idéia de necessidade. Já a noção de estética do artifício é uma forma de pensamento a par com o conceito de trágico, de amor ao destino, à afirmação do acaso e do jogo de dados que é o real (Mallarmé). O "artifício" não está contra a maré da "natureza", mas em plena afirmação de si mesmo, das forças irredutíveis ao império do pensamento. Para além de qualquer dialética reducionista.
"Travestismo", "eonismo", os reducionismos científicos abundam, e não poderia ser diferente, já que é a lógica da Razão. Mas o Sr. B. é uma hecceidade, ou seja, um acontecimento híbrido subterrâneo, diante da tentativa de captura dos psiquiatrismos, que imaginam mesmo ter capturado a "anomalia". Não se trata de objetivar regras de comportamentos "desviantes" (estratégia da Ciência, principalmente a médico-psiquiátrica), mas de lançar o pensamento às exceções, às faíscas lançadas pelos homens "infames", "anônimos". Infames porque clandestinos, sem fama. O "anômalo" esgarça as sete faces do Dr. Lao , é uma selvagem epidemia de si afora. Multiplicidade. Infiel a si mesmo, o "eu" é uma matilha de trans-reinos, fluxo d'água onde o cidadão doméstico não se atreve a banhar-se. Aberto, o corpo cria elos inimagináveis e intensos, contamina e é contaminado por hibridismos: devir-animal, devir-inseto, devir-planta, devir-feminino. Por que "feminino"? Ora, já era tempo de praticar a iconoclastia sobre o Falo de cabeceira do Dr. Freud e do androcentrismo.
Assim como o devir-criança (ou mesmo o "gênio-criança" baudelairiano) é um exemplo de experimentação encarnada em contraste com a tradição antropocêntrica do "Homem-Adulto-Branco-Europeu" civilizado, citizen, velho professor-doutor elevado à transcendência. Devir-algo não significa mímica, teatro de representação e metáfora, mas experimentação de estrangeirismos de si (o que pode significar o mesmo que zonas de vizinhança), transfiguração híbrida, teatro da crueldade (Artaud).
Trata-se de produção desejante, e não de representação. Um devir-feminino não executa uma pantomima da "mulher", mas lança um corpo bio-lógico (no caso, "masculino") num vir-a-ser outro, o "sair de si". Não "a" mulher, mas "uma" mulher única, fluxo feminino inimitável, de impossível duplicação. Como um devir, um processo, a experiência do travestimento é um descaso ativo aos territórios sexuais e identitários. Sr. Bartolomeu, travesti? Na carência gramatical, na falta de definição, talvez. Um gender-fucker na prática. Calcinha, compridas unhas vermelhas e barba na cara. Elegância, suavidade e agressão em uníssono. Carnavalizar-se. Afirmar-se na incerteza, na evanescência, num neutro ativo. Só assim a estereotipada androginia do "2 em 1" pode fatiar-se em cardumes.
Não há um ponto onde encontra-se o indivíduo-raíz transparente à interpretação, mas linhas que fogem e criam devires incontroláveis. Hecceidade pode ser uma estação, uma data, um abalo sísmico, uma epidemia. No caso do Sr. B., trata-se de uma tentativa de homicídio nos anos 70, com arma branca, desencadeando nos períodos seguintes de seu ato todo um (temporário) recolhimento e uma experiência de travestimento até então nunca posta às claras.
De acordo com o inquéritos que tive acesso, no Fórum de Londrina, o cearense B. L. B., em fevereiro de 1972, desferiu mais de uma dezena de punhaladas na prima e esposa, Dona F. "Unos cuantos piquetitos", como diz o quadro de Frida Kahlo. Como não mantinham relações sexuais há um bom tempo, de acordo com o depoimento do marido, Sr. B., este não admitiu tal "insolência" de Dona F., que escondera a "infame" gravidez de todos, realizando o próprio parto numa madrugada dos inícios de 1972, trancada ao banheiro. Ao retornar ao leito, com o recém-nascido no colo, o Sr. B. inicia uma discussão que acaba por acordar a (até então) única filha do casal, de nove anos de idade.
O desenlace se dá quando, no Sr. B., desaba qualquer hesitação diante de uma usina desejante em jorros de abundância, de uma violência transbordante. Aqui, a experiência do crime não é um fim, mas um processo de possessão de reinos estranhos ao "eu". Zonas estrangeiras de si tomam o (des)controle. O Sr. B. mune-se de dois punhais de sua coleção e avança sobre a esposa, perfurando-lhe vários pontos do corpo. Dona F. sobreviveu, liberada do hospital sete dias após o internamento. Nos meses e anos seguintes, o Sr. B. isola-se numa casa e trama-se com delicados e terríveis fluxos femininos no corpo, até então nunca experimentados tão abertamente por ele. A besta entra num estado de calmaria pós-colapso, e enfeita a própria solidão, seu platô, sua moradia.
Seu pequeno castelo: as paredes, o teto, o corpo, em cada centímetro, em cada quina, há belos ornamentos improvisados com a cor e o aroma do tempo,
poeiras, latarias, tecidos e frutas inutilizadas, tudo subjugado a uma forma, a uma arquitetura; máquinas de ready-made a reinventar-se, como a si mesmo. Caixas de presente vazias, quadros populares, uma pirâmide de garrafas de Ypióca, Jesus Cristo, São Jorge, Sandy, Bartolomeu, o Pai, a Mãe, Leandro&Leonardo, pornografia heterossexual, espelhos e mais espelhos, centenas de latas amarradas umas às outras e penduradas pelos tetos, linhas presas às lamparinas, reunindo antigos caroços de manga sobrepostos, com olhos colados à maneira de um peixe, órbitas arrancadas de bonecas desfiguradas de bazar. Lugar de descanso do Híbrido, numa sobreloja de Londrina.
O anti-Narciso é de uma vaidade singular, fugidia e instável, como os vultos, que são desejos em movimentos de imaginação. Mesmo os contornos emoldurados do corpo parecem afastar-se ao máximo, à diluição, nos momentos de febre, de pura velocidade desejante, como num fluxo-maquinário de guerra. Fora dos eixos da auto-preservação humanista (seja de caráter fascista ou democrático) o sujeito que se produz como uma Exceção representa "perigo" para si mesmo, já que é avesso ao estatismo conservador em cada lance do "além-de-si", de um nomadismo do (desejável) impossível.
Publicado em 27 de abril de 2004 às 02:49 por jose
Genet puro