...ou RITUAL DE LO HABITUAL:
DAFNE (bêbada, com um ferro de passar roupa na mão direita, quentíssimo; hoje é aniversário de morte do marido. Retira um enorme naco de carne bovina do congelador, deposita sobre a pia de alumínio, e começa a “passar carne”):
-Ah, seu puto! Se eu pudesse voltar no tempo e fatiar-lhe o pau e o resto, novamente! Inveja do pênis? O caralho! Por que nunca dizem “inveja do útero”, ou das “mamas”? Quê? É hora grave, agora. Retiro tuas dobras para que me revele o impossível, puto!
(Muita fumaça e forte odor de carne frita. Dafne ritualiza um re-assassínio de seu marido, anualmente. Agora é o cimo das horas).
ABIGAIL, a filha (desperta do sono): - Mãe! Louca! Que fazes a passar carne? Que falta de tino é esse, mulher?
Dá-me esse ferro, já!
DAFNE: - Volta! ... não interfira! Anda, anda!
(Enterra a carne de volta no congelador, no branco de gelo, o “marido” representado. Sentia a carne estremecer, sob suas mãos vermelhas. Assim como a espasmo da sua pálpebra inferior. Seu sorriso indócil farfalhava e levantava vôo. Em silêncio. Toma uma orquídea entre dois dedos, ao lado da geladeira).
A ORQUÍDEA, falando através da glote de um pequenino escaravelho, pousado no seu centro: - Por que ainda te perturba isso tudo? Não é hora de esquecer, Dafne? Lembre-se de esquecer, todos precisam disso! Desencana!
DAFNE: - É... quem sabe ano que vem... ano que vem penso nisso.
Bjcas!