O dançarino irá entoar o Canto da vinda da “Coisa” pelas axilas dos tentáculos; a voz será a de um castrati italiano.
Há ouvidos nos pés que deverão evocar o cardume de pítons emaranhadas.
O encantador de cobras: no bailarino, o ouvido no tornozelo sempre haverá de ter hemorragia; é o exato momento em que se elevará do solo ereções de serpentes cegas, febris.
Ele fará encomendas raras ao Boticário triturador de drogas do Oriente ressequido. A papoula estará à esquerda-menor do Zero que preenche o Ovo Oco. E que ele sacrifique os ossos em nome da pura cartilagem exposta, é sabido. Mas os músculos deverão estar carregados de eletricidade. Quase um atletismo metafísico, caso não fosse uma experiência tão sensual.
O bailarino aparentar-se-á a alcatéias em fuga (“fuga ao encontro de”); em nada se assemelhará à forma simétrica e bípede do Homem.
O pulmão jorrará uma procissão louca de infinitas hemaciazinhas emplumadas de sangue-em-pó, rumo às asas. A usina-pulmão será um curto-circuito direcionado às finíssimas asas, que batem a 897 vezes por segundo. O ruído será o de uma cortina sussurrando dobras labiais na zero hora de um domingo de mil toneladas de Jesuses medusados em estátuas de sal mausoléicas (rs...).
Pois o bailarino será também uma mosca decaída da virilha perfumada de Deus e já entediada com Belzebu. Por isso o dançarino tornar-se-á “santo para si mesmo”, desejo confesso por Baudelaire em “Meu coração à Nu”, seu diariozinho com Bombons do Mal, ou seja, grávidos de cerejas prontas a florir uma epidemia necessária.
Por fim, o bailarino escarificará as próprias asas em frenesi maquínico, para enlamear o mundo e ungir-se de Queda Bêbada Coreográfica.
Publicado em 26 de maio de 2004 às 01:18 por jose
que delícia.
te beijo. Í