ou Epilepsia Xamânica
No banheiro (unissex) do bar do Muhamed três vultos abordam Abigail na privada. O Erotômano, Onã e o Bofe. Ela tenta fitá-los, mas vultos são arredios e permanecem sempre ao canto do nosso foco de visão:
O EROTÔMANO: é tudo o que a Grande Mãe precisava... uma garota de bexiga cheia. Precisamos amarrar as trompas, também. Conter outros fluxos infames.
ABIGAIL: Que porra é essa? N...
ONÃ: Abra as pernas... preciso despejar minhas sementes.
ABIGAIL: Sai fora! O caralho que você vai esporrear dentro de mim! Me larga, puto!...
ONÃ: Idiota! Um onanista jamais dá fins produtivos ao sêmen. Tudo deverá ser desperdiçado, gota por gota, semente por semente. Disse pra você abrir as pernas para que eu despeje minha porra na privada, imbecil! Anda, abra, antes que eu goze na tua cara!
O BOFE: Eu seguro as pernas da vaca, enquanto você despeja no vaso. Hum... abre... assim, baby (Passa a língua no pescoço de Abigail, e apaga o charuto na sua virilha).
ABIGAIL: Aaai desgraçadofilhodaputa!
(Onã lança jorros prateados, numa indelicada ereção, em pulsações contínuas uma, duas, três, sete jorradas e o fastio vem numa queda e a seguir o desaparecimento, na brisa desenterrada da nuca de Abigail)
O EROTÔMANO: Michel entrará em iniciação hoje. Cuida dele, Biga. (Some)
O BOFE, dando descarga e pegando abigail pelos cabelos da nuca: Olha lá! No cu do redemoinho, Abigail. Tá vendo o que o oráculo diz? Certas “coisas” voltam. Cuide-se, darling.
Na mesa do bar, Michel já está bêbado, virando mais uma vodka (a dos pigmeus siameses). Passa mal. Corre ao banheiro. Não vê Abigail saindo, atordoada. Que idem.
Michel vomita nos vasos presos à parede, como de costume. Sente o ventre inchar e arrebentar-lhe estrias. Tenta olhar-se no espelho, mas sua visão escurece. Cãibras sem fôlego em cada músculo do corpo. Olhos revirados. A língua indócil. As rótulas dos joelhos escorregam para trás, seu tendão de aquiles se estende às nádegas, os pés torcem, os cotovelos retorcem, a urina jorra do irreconhecível pau; cai no chão. Os olhos são expulsos por dois chifres negros, enormes, saindo das órbitas. Os ossos da pélvis abrem-se em duas asas expostas. Michel sente o ventre prestes a abrir, num lábio intumescido. Mete a bunda no vaso, à parede. Grita. A Fenda Uretral reabre, ali, no ventre do pênis, se estendendo pelo escroto quase até o ânus, aquele rastro de pele mais escura, cicatriz do estágio indiferenciado da formação genital, nos fetos. Som de líquido espesso e nacos de carne. Uma bolsa translúcida revela deus natimorto, num movimento silenciado. Uma coisa com pelos grossos e negros; dentinhos no alto da cabeça, no maxilar e nas pálpebras. Isso era o que de mais humano, havia. O resto, inominável. Afinal, não é como as “coisas” devem ser?
Nada mais será sacrificado como Souvernir de Sangue a deus algum. Mas o inverso. Deus será sacrificado para que os cães e os desejos possam latir mais alto.
Michel vibra em mil sinos, órgãos e catedrais em ruínas sonoras; nem sinfonia nem simetria barroca, nem claro nem escuro nas dobras. A iluminação veio, explosiva. É o que alguns dizem.
ABIGAIL entra no banheiro: Que cê tá fazend... Michel! (enfia o dedo na boca do amigo e puxa a língua, enrolada, pra fora). Cara, que foi?
MICHEL: Pari um natimorto. Deus natimorto. Bem que você poderia fazer o mesmo, com a raça humana, não? (risos). Vem, Biga... me ajuda a levantar... tô 100% já... vomitei, e tal.
ABIGAIL: Cara... vi umas coisas estranhas (passa a mão na virilha)... tem pó ainda? Só pra mim, você não pode mais, hoje. Tô preocupada. (retira do dedo de Michel o anel, contendo a droga)
MICHEL: Muhamed? (Longo silêncio) Vê um... martini seco. A garrafa com os testículos de búfalo. Ah, e... ovários de porca, daquela outra garrafa ali.